Um episódio de extrema tensão registrado durante a libertação de reféns em Pontes e Lacerda, a 448 quilômetros de Cuiabá, ganhou repercussão nacional nas redes sociais. Um vídeo gravado durante o sequestro de Juliano Souza Queiroz, presidente do Sindicato Rural do município, mostra o momento em que o policial militar responsável pelas negociações desafiou um dos criminosos armados com a frase: "Então mata!".
O desfecho do caso ocorreu na madrugada de uma quinta-feira (9 de julho). Embora todas as dez vítimas tenham sido resgatadas com vida e sem ferimentos, a conduta verbal adotada pelo negociador durante o gerenciamento de crise tornou-se alvo de intensos debates entre especialistas de segurança pública e internautas.
O que mostra o vídeo da negociação sob forte tensão?
As imagens captadas por profissionais da imprensa que acompanhavam o cerco policial mostram um dos instantes mais críticos do impasse. Um dos sequestradores, mantendo uma arma apontada diretamente para a cabeça de um dos reféns, exigiu que os jornalistas presentes se aproximassem ainda mais para registrar a rendição ao vivo pelas redes sociais.
Diante da recusa do negociador em permitir a aproximação dos profissionais da imprensa, o criminoso ameaçou executar as vítimas imediatamente caso não fosse atendido. Foi nesse instante que o policial respondeu de forma incisiva:
“Se você vai matar, mata! Então mata, mata, mata!”
Logo em seguida, outra voz policial ao fundo interveio para alertar o negociador e acalmar os ânimos: “Ei, ei, ei, segura, segura aí! Tá ao vivo, pô!”.
Após o alerta do colega de farda, o negociador imediatamente recuou no tom agressivo e tentou restabelecer o equilíbrio emocional na conversa: “Tenha juízo, cara. Tenha juízo. Se você der um tiro a gente invade e mata todo mundo. Larga de ser maluco. Tenha paciência e venha, venha pra cá, venha com calma. Cara, pelo amor de Deus, larga de ser mané. Tem que trazer pessoas aqui para resolver para vocês”, disse o militar.
Como ocorreu a invasão e o sequestro com dez reféns?
De acordo com o boletim de ocorrência da Polícia Militar, o caso teve início por volta das 23h50 de uma quarta-feira. Quatro criminosos armados e encapuzados invadiram uma residência localizada na Avenida Bahia, onde ocorria uma confraternização de aniversário.
No interior do imóvel, a quadrilha rendeu e fez reféns dez pessoas — quatro homens, incluindo o presidente do Sindicato Rural Juliano Queiroz, e seis mulheres. Os assaltantes tentaram fugir do local utilizando uma caminhonete de uma das vítimas, mas foram interceptados pelas viaturas da PM que já cercavam a área após denúncias anônimas de vizinhos.
Encurralados na parte dos fundos da casa, os suspeitos passaram a manter as vítimas sob mira constante de revólveres e pistolas. Temendo uma possível retaliação policial e uma eventual troca de tiros (confronto), os sequestradores exigiram a presença da imprensa local e transmissões ao vivo na internet como garantia de que seriam presos com vida.
Rendição pacífica e análises sobre o gerenciamento de crises
Apesar do momento de forte estresse verbal registrado no vídeo, a negociação durou cerca de 30 minutos adicionais e terminou de forma bem-sucedida. Os quatro criminosos, com idades entre 18 e 22 anos, decidiram entregar as armas de fogo e renderam-se um a um de maneira pacífica.
Todos os dez reféns foram libertados sem ferimentos graves. Com o bando, os policiais apreenderam duas armas de fogo e munições intactas. Os detidos foram levados para a delegacia da Polícia Civil de Pontes e Lacerda, onde foram autuados em flagrante pelos crimes de roubo majorado, porte ilegal de arma de fogo e sequestro e cárcere privado.
Doutrinadores de técnicas policiais apontam que, no gerenciamento de crises envolvendo reféns, a barganha e a manutenção de um canal de diálogo calmo e empático são as ferramentas recomendadas para reduzir o estresse dos sequestradores. No entanto, defensores da ação policial pontuaram que a pressão psicológica exercida pelo negociador ao demonstrar que a polícia não cederia a chantagens extremas pode ter colaborado para desestabilizar a autoconfiança do bando, apressando a rendição pacífica e preservando as vidas em perigo.
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